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Gare do Oriente, Médio

Dois arquitectos portugueses emigram para o Reino da Arábia Saudita. Um escreve (às vezes também esquiça), outro fotografa.

Gare do Oriente, Médio

Dois arquitectos portugueses emigram para o Reino da Arábia Saudita. Um escreve (às vezes também esquiça), outro fotografa.

26 Set, 2025

Boião de Cultura

 

A propósito de um artigo do nosso homem no Al-Ittihad, Rui Lança, no jornal A Bola procurei reflectir, em modo percepção, sobre a relação dos nossos compatriotas com a cultura local, em termos profissionais. De forma simplista, reclamamos mas fazemos. De forma mais elaborada, é complicado.

Nota-se uma tendência dos nativos para a microgestão, dificuldade em assumir erros e, sobretudo,  ignorância  sobre qualquer tema, da quantidade exacta de picles numa shawarma, à física quântica.

Bom, nem todo o português tem feitio para lidar com isto. Vê-se uma clivagem geracional clara: a Geração Z não tem feitio para chefias tóxicas.

O que aprendi ao longo dos anos é que a análise dos interlocutores é fundamental, sobretudo na gestão de expectativas. Há toda uma hierarquia de poderes, comandos e relações que é preciso compreender se queremos manter alguma sanidade mental e, no fim do dia, apresentar resultados.

A natureza dos projectos também influencia a cultura laboral, a  quem muito é dado, muito é exigido. Giga-projectos implicam giga-orçamentos, giga-orçamentos exigem giga-resultados. Ou grandes, ou pelo menos alguns. Quando os resultados não aparecem, começa a caça às bruxas. Cria-se uma cultura de auto-protecção, cada um procura uma armadura de teflon, esperando que nada lhe pegue quando as coisas correm mal.

Tomar decisões que possam causar atrasos ou aumentos de custos é repelido como um convite para uma reunião sobre políticas de bem-estar numa quinta-feira à tarde.

Giga-projectos trazem visibilidade e revelam ambição, mas a sua dimensão gera uma tal aversão ao risco que o custo das decisões conduz a atrasos, derrapagens e, no limite, à entrega de um produto abaixo das expectativas.

De um modo geral, os portugueses até se desenrascam bem (lá está, o desenrascanço). Há muito sangue árabe a correr-nos nas veias, e uma sensibilidade peculiar para identificar os pontos críticos de quem está por cima, ou para motivar quem está por baixo.

Chamamos-lhe cultura, mas é antes um mosaico: pedaços árabes, traços lusos, e muito cimento de improviso.